Uma Estranha Palestra e Uma Promessa - A Criança e a Música
Era um entardecer cinzento de outono. Achava-me sentado em frente ao piano, compondo uma nova canção para as crianças do meu coro. Pelo aposento achavam-se dispersos livros, cadernos, algumas folhas manuscritas e outras em branco.

Capítulo 1
Era um entardecer cinzento de outono. Achava-me sentado em frente ao piano, compondo uma nova canção para as crianças do meu coro. Pelo aposento achavam-se dispersos livros, cadernos, algumas folhas manuscritas e outras em branco. Reinava a desordem que imaginamos na mesa de trabalho de um artista. Na lareira ardiam toros de lenha e seu brilho iluminava misticamente o cômodo. De repente abriu-se a porta e entraram duas crianças. Teriam sido atraídas pelo som do instrumento ou eram, acaso, produto de minha fantasia, na tarde sonhadora?
Entraram, resolutamente, um menino de uns doze ou treze anos, vivo e alegre, e uma menina menor, de oito ou nove anos, talvez. Estenderam-me as mãos e, sem dar-me tempo para perguntar-lhe o motivo de sua visita, o menino começou a falar:
– O senhor escreveu um livro sobre música...
– Sim – respondo. – Escrevi.
– E na primeira página vi um lindo quadro com crianças que brincam e cantam. Não é verdade?
– Sim, amigo; parece-me que sim...
– E escreve em baixo: "A música começa com as crianças"...
Mil pensamentos cruzaram minha mente ao ver as expressões tão sérias de meus desconhecidos visitantes. Fizeram-me suspeitar que, talvez, essa estranha entrevista não terminasse bem para mim. Havia eu escrito em meu livro algo contra a infância? Ideia absurda! Eu, contra as crianças! Contra meus melhores amigos! Amando-os tanto e dando-me tão bem com eles! Sempre sonhei que algum dia gravarão sobre meu túmulo: "Foi amado pelas crianças e pelos animais, os melhores entes da terra". Ao assim divagar, meu espírito havia-se distraído, ausentando-se de minha sala de trabalho. Retornei à realidade, com as palavras do menino:
– Por que, então, não escreve para nós alguma coisa sobre música?
Sobre esse "nós" gravitava, invisivelmente, um forte acento. Fez-me pensar na multidão de crianças.
A menina abriu a boca pela primeira vez, resolutamente:
– Sim, por que não?
– Desejaríamos saber tantas coisas! – continuou o menino.
– Que querem que escreva?
Um momento de silêncio e sugiro:
– Provavelmente uma história?
Eles ficaram pensando.
– Ou solfejo? – pergunto ingenuamente.
A reação foi instantânea e muito violenta.
– Isso não! Já o temos de sobre no colégio... Diga-nos, senhor, é o solfejo toda a música?
Sorrindo, tive de confessar que não; constitui somente uma pequena parte do vasto império da música, e também não é o melhor caminho para conhecer e amar suas belezas.
Os três ficamos pensativos. Foi a menina que, como toda mulher, encontrou a fórmula mais sensata para o que parece difícil aos homens:
– Queremos que nos conte tudo.
– Explique-nos tudo – reforça o menino.
– Tudo?
– Sim. De onde vem a música.
– E como se fazem as belas melodias que ouvimos.
– E sobre os instrumentos.
– Como se tocam.
– Como se formam as orquestras.
– E sobre o canto.
– Como cantam as outras crianças do mundo.
– E sobre o teatro... o rádio... os discos...
– E sobre a música de outros povos.
– De outros tempos...
– E sobre Mozart...
Só então pude interromper por um instante o tumulto de pedidos.
– Que sabem sobre Mozart? – pergunto-lhes.
– Foi grande músico; quando menino, aos seis anos, tocava muitos instrumentos e compôs lindas melodias...
– E é por isso que ele os interessa?
O menino se torna pensativo, mas logo responde:
– Também por isso; mas todos os grandes músicos nos interessam. Falemos deles.
– Como viviam...
– E onde.
– Se foram crianças como nós.
– Ou mais inteligentes – diz o menino olhando para a menina.
– Ou mais aplicados – replica esta, devolvendo a olhadela.
O fogo se apagava lentamente na lareira; eu havia começado a dar voltas pela casa.
– O senhor vai escrever tudo isso? – perguntou meu visitante; e a menina acrescentava:
– Por favor, para nós!
– Mas, meus pequenos – digo um pouco assustado – isso será um livro muito grande!
– E que importa? – responderam ao mesmo tempo. – Podemos voltar amanhã?
– Para buscar o livro.
Sorri.
– Meus amiguinhos; escrever tudo o que é e o que significa a música, e em um dia! Além disso, tenho uma ideia: não vou escrever sozinho, vocês me ajudarão. Assim saberei o que lhes interessa. E outra ideia: não vamos nos encontrar sempre aqui. Levá-los-ei a diferentes lugares para fazê-los ver e ouvir quanto lhes vá explicando: a um concerto, por exemplo, a um teatro, a uma estação de rádio, a um estúdio onde se fazem películas sonoras, a uma fábrica de instrumentos, à gravação de discos, a um museus de instrumentos antigos e curiosos, a uma festa popular com muita música e dança...
– Que maravilha! – exclamaram meus desconhecidos visitantes. – Que maravilha!
– Bem – digo – estamos combinados. Será o seu livro. O livro musical das crianças.
Os olhos de ambos brilharam. Quando chegaram à porta da rua, escutei a menina dizer:
– Ouviu? Nosso livro!

Fonte: Capítulo 1 do livro "A Criança e a Música" de Kurt Pahlen. Esse livro pode ser encontrado em sebos. Edição original de 1953.
Revisão do Texto: Emerson Almeida - Equipe Educalar.
Fonte Imagem: Canva/Educalar.
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