Como viviam os Puritanos: Educação - Parte 1.
A teoria da educação que estou para esboçar é um corretivo não apenas para a educação secular como para muito da educação cristã também. Alguns porta-vozes da educação cristã hoje, que se presumem dentro da tradição da Reforma, estão de fato fora dela.
A verdade vem de Deus, onde quer que a encontremos, e é nossa.
- Richard Sibbes.
Ts. Eliot certa vez observou que “devemos derivar nossa teoria da educação de nossa filosofia de vida. O problema torna-se um problema religioso”. Os puritanos teriam concordado. Nunca houve melhor exemplo de educação partindo de uma filosofia de vida do que fornecido por eles.
A teoria da educação que estou para esboçar é um corretivo não apenas para a educação secular como para muito da educação cristã também. Alguns porta-vozes da educação cristã hoje, que se presumem dentro da tradição da Reforma, estão de fato fora dela.
Os Puritanos como Defensores de Educação
Antes de ver a filosofia puritana da educação, podemos proveitosamente observar alguns fatos e estatísticas concernentes ao movimento puritano na educação. Este esboço histórico revelará que o zelo puritano pela educação foi um dos aspectos mais notáveis do movimento.
Na América, nenhum dos outros colonizadores de fala inglesa estabeleceu tão cedo a educação universitária após sua chegada quanto o fizeram os puritanos. Apenas seis anos depois da sua chegada na Baía de Massachusetts, o Tribunal Geral votou quatrocentos libras “para uma escola ou faculdade”. Assim estabelecida, a faculdade de Harvard foi mantida durante seus primeiros anos parcialmente pelo sacríficio de fazendeiros, que contribuíram com trigo para sustentar professores e alunos.
No famoso documento do puritanismo americano, intitulado New England’s First Fruits (1643) (Os Primeiros Frutos da Nova Inglaterra), lemos este relato do que estava por detrás da fundação do Harvard College:
Depois que Deus nos levara a salvo para a Nova Inglaterra, e havíamos construído nossas casas, fornecido o necessário para nossa sobrevivência, criado lugares convenientes para o culto a Deus, e estabelecido o governo civil, uma das próximas coisas que desejávamos e buscávamos era dar continuidade ao estudo e perpetuá-lo para posteridade.
Cotton Mather chamou aquele ato de “a melhor coisa que a Nova Inglaterra jamais pensara”, acrescentando que os puritanos “estavam desejosos de deixar as colônias mais ricas, que retinham os costumes da Igreja da Inglaterra, verem ‘o quanto a religião verdadeira era uma amiga da boa literatura’”.
Fundar escolas tornou-se a marca do puritanismo americano. “Senhor, por escolas em todo lugar entre nós!”, orou John Eliot num sínodo das igrejas de Boston nos seus primeiros dias; “Oh, que nossas escolas possam florescer! Que cada membro desta assembleia possa ir para casa e consiga uma boa escola para ser encorajado na cidade onde mora”. Uma lei de Massachusetts, de 1647, ordenou o estabelecimento de escolas, e Connecticut fez o mesmo três anos depois. O Código de New Haven, de 1655, ordenava a todos os pais e mestres a providenciarem meios para ensinarem seus filhos e aprendizes.
Este respeito pela educação foi igualmente característico do puritanismo inglês. O número de escolas primárias dobrou na Inglaterra enquanto os puritanos estavam em ascendência. John Knox teve a ousadia de recomendar ao Grande Conselho da Escócia que “vossas Senhorias sejam ao máximo cuidadosos da educação virtuosa e da santa instrução dos jovens desta região”. Um puritano inglês disse ao Parlamentar:
Aquele Deus que é sabedoria abstrata e tem prazer em que suas criaturas racionais busquem por ele, e que seus ministros estudem para propagá-la, esperará que sejam pais adotivos do conhecimento.
Oliver Cromwell foi pessoalmente responsável por estabelecer uma faculdade em Durham.
Modernos historiadores da educação dão crédito aos puritanos por grandes empreendimentos educacionais. Um deles diz que, “sob vários aspectos, o Commonwealth da Inglaterra foi um período quando os estudos universitários alcançaram um ápice. Entre 1640 e 1660 as autoridades puritanas assumiram um papel ativo na regulamentação das escolas da nação e no estabelecimento de novas escolas. O Ato de Propagação de 1641 foi instrumental na fundação de mais de sessenta escolas livres em Gales, todas as quais desapareceram após a Restauração. Cromwell “fundou ou reabriu inúmeras escolas primárias, e também determinou que professores fossem enviados pelo país afora para suprir as necessidades educacionais”.
Defesa Puritanas do Estudo contra o anti-intelectualismo.
A educação sempre precisou de defesa contra forças anti-intelectuais na sociedade e dentro da igreja. No séc. XVII, protestantes radicais na inglaterra conhecidos como “sectários” mantinham um ataque constante aos puritanos e a outros que enalteciam o valor da educação e a importância da razão. Seus correspondentes na América, conhecidos como “os antinomistas”, criaram tamanho distúrbio que os puritanos finalmente os baniram para Rhode Island. Um dos antinomistas afirmou sua preferência ao pregar, com o comentário: “Prefiro ouvir alguém que fala pela mera movimentação do espírito, sem qualquer estudo que seja, do que a qualquer um dos eruditos, embora ele possa estar mais cheio da Escritura”.
Os puritanos maciçamente defendiam a causa do estudo e a faculdade da razão contra tais ataques à mente. Para eles, o zelo não era um substituto para o conhecimento. John Preston declarou: “Eu não nego que um homem possa ter muito conhecimento sem ter graça, mas, por outro lado… não se pode ter mais graça do que se tem conhecimento”.
Richard Baxter acreditava que “a educação é o meio ordinário de Deus para a comunicação da sua graça, tanto quanto a pregação da Palavra não devia ser colocada em oposição ao Espírito”. John Cotton declarou que, embora “o conhecimento não seja conhecimento sem zelo, este é um fogo descontrolado sem conhecimento”. Os sectários e antinomistas visualizavam a fé e a razão como antagônicas. Os puritanos rejeitavam a perene tentativa de menosprezar a razão em questões religiosas. “A fé é baseada no conhecimento”, disse Samuel Willard; “embora Deus seja… visto pelo olho da fé, ele também deve ser visto pelo olho da razão: John Preston escreveu que a graça divina que
eleva a razão, e a torna mais alta, a faz ver além da que a razão poderia, é de fato contrária à razão corrupta, mas à razão que é razão certa não é contrária, apenas a eleva ainda mais; e, portanto, a fé não ensina algo contrário ao senso e à razão.
John Cotton chamou a razão de “uma indispensável sabedoria em nós”, e William Hubbard, "nossa melhor e mais fiel conselheira”.
A fé puritana na autoridade da bíblia não os levou a menosprezar a razão como irrelevante. Cotton Mather fez o profundo comentário de que “a Escritura é razão em sua forma mais elevada”. A primeiras leis da faculdade de Harvard exigiam que os estudantes fossem capazes não apenas de ler as Escrituras, mas também de “interpretá-las logicamente”. Uma pista do que isto acarretava é sugerida pela descrição de Richard Baxter das instâncias em que os cristãos devem usar sua razão:
Devemos usar nossa melhor razão… para saber quais são as verdadeiras Escrituras Canônicas… para expor o texto, para traduzi-lo fielmente… para reunir justas e certas inferências das afirmações da Escritura, para aplicar regras gerais a casos particulares, em assuntos de doutrina, culto, disciplina e prática costumeira.
William Bridge soou a autêntica nota puritana quando escreveu que “a razão é de grande uso, mesmo nas coisas de Deus”. Thomas Hooker foi elogiado por seu colega Samuel Stone por fazer “a verdade aparecer pela luz da razão”.
Dadas as forças do anti-intelectualismo operante no seu próprio meio religioso, os puritanos poderiam ter caído num desprezo da razão. Ao invés disto, eles permaneceram defensores da razão e do conhecimento.
A Aversão Puritana à Ignorância
A defesa puritana do estudo e da razão teve como contraparte uma aversão incomum à ignorância, especialmente em assuntos religiosos. O impulso por trás da fundação de Harvard College pelos puritanos foi seu “pavor de deixar um ministério inculto às igrejas, quando nossos atuais ministros repousarem no pó”. Ebenezer Pemberton, num sermão funerário pregado na morte do honrável John Walley, declarou que, “quando a ignorância e a barbaridade invadem uma geração, sua glória é deitada no pó”. Thomas Hooker exclamou com relação ao povo inglês do seu tempo: "É incrível e inconcebível a ignorância que há entre eles”, enquanto William Perkins era da opinião de que “onde reina a ignorância aí reina o pecado”.
Dizer que os puritanos valorizavam uma mente educada não é subentender que eles achavam aquele ideal fácil de se obter. Os obstáculos eram os mesmos de agora: a preguiça mental, a complacência e a pretensão da ignorância, as pressões do tempo e a tentação de se acumular dinheiro em vez de pagar por uma educação.
Líderes puritanos, pelo menos, valorizavam uma mente educada acima de riquezas materiais. Cotton Mather advertiu sua congregação com o comentário:
Se sua principal preocupação for ganhar as riquezas deste mundo para seus filhos, e deixá-los fartos com as coisas deste mundo, parece muito suspeitosamente que vocês mesmos são pessoas deste mundo, pessoas cuja porção está apenas nesta vida.
John Milton prestou este comovente tributo a seu pai quando se aproximava do término de sua educação universitária:
Pai, não me mandaste ir onde o caminho largo se abre, onde o dinheiro escorre mais facilmente às mãos, e a dourada esperança de acumular riqueza brilha forte e certa… desejando, porém, que minha mente fosse cultivada e enriquecida… que maior riqueza um pai poderia ter dado… embora tivesse dado tudo menos o céu?
Estabelecer a correta prioridade de valores tem sido a agenda oculta para cada geração de cristãos. Em dias de meios materiais relativamente modestos, muitos puritanos demonstraram pelas suas ações que valorizavam o estudo acima dos bens.
Trecho Retirado do Capítulo 9: Educação, do livro "Santos no Mundo" de Leland Ryken.
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Fonte Texto: Livro "Santos no mundo".
Imagem: Canva Educalar
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